domingo, 15 de junho de 2008

Poesia - Ricardo Gonçalves














Saudações aos velhos leitores, aos novos e possivelmente aos raros visitantes que vêm ao encontro de mais uma catarse social em mais uma singela madrugada que me ponho a escrever.
Estava lendo hoje, por páginas perdidas, culpa da minha triste e momentânea falta de tempo para interesses meramente particulares, uma poesia que encontrei no livro "Nem pátria, nem patrão: vida operária e cultura anarquista no Brasil" de Francisco Foot Hardman. A poesia está diretamente relacionada com o anarquismo no Brasil, não sei exatamente a época mas ao encontrar citados no livro Monteiro Lobato e Oswald de Andrade (para quem a propósito o autor clama "simpatias difusas e meramente intelectuais"), chutaria que está entre 1920 e 1930, talvez um pouco antes que a década de 20. O autor se chama Ricardo Gonçalves e além de poeta, era estudante de direito. Para referenciá-lo melhor preferi reescrever aqui parte de um parágrafo do livro:
"Não estamos falando diretamente, aqui, de literatura anarquista ou "operária". No caso da escrita macarrônica e da sátira política, trata-se de mediação de um punhado de escritores da classe média paulistana que, de certa forma, rompiam com os cânones literários bacharelescos."
Sem mais delongas, a poesia:

Rebelião

(...)Como um vago murmúrio,
Mansa a princípio, ela ecoa,
Depois é um grito bravio
Que pela noite reboa,
Que para a noite se eleva
Num pavoroso transporte,
Como um soluço de treva,
Como um frêmito de morte.

(...)Ah! Nesse grito funesto
Nesse rugido, palpita
Um rancoroso protesto.
É o povo, a plebe maldita
Que, sombria, ameaçadora,
Nas vascas do sofrimento,
Mistura aos uivos do vento
A grande voz vingadora

(...)E quando comece a luta,
Quando explodir a tormenta,
A sociedade corrupta,
Execrável e violenta,
Iníqua, vil, criminosa,
Há de cair aos pedaços
Há de voar em estilhaços
Numa ruína espantosa"

2 comentários:

Marília França disse...

gostei da poesia....
alguém a de escrever sobre os problemas de nossa sociedade....
terei um capitulo desses tb.
:)

Michelle Correa disse...

Oi Fabio, estava a procura deste poema, estou lendo o livro Libertários no Brasil, que achei num sebo, fala justamente das memórias do anarquismo no país e cita Ricardo Gonçalves. São vários artigos organizados por Antonio Arnoni Prado, editora brasiliense, página 109, 1986.

Foi escrito e dirigido a multidão de operários presentes no largo de São Francisco, para pedir solidariedade dos estudantes à greve geral paulista em 26 de maio de 1906.