sábado, 22 de março de 2008

Luta de Classes

Depois de meses e meses sem inspiração... continuo sem inspiração. Portanto, para não deixar o blog morrer e dar uma forcinha pra que ele continue como morto-vivo, estou postando um conto que escrevi algum tempo atrás com a minha pseudo-inspiração da época (quem me dera tê-la de volta).
O texto é uma discussão entre dois homens de classes absurdamente discrepantes, clichê total, eu sei, mas acho que nesse caso veio de bom grado, mas quem decidirá será a consciência de vocês né, afinal de contas, quem sou eu diante de uma boa crítica?
Sem mais delongas...

A Luta-de-Classes

Passava um homem engravatado, de inteligência aparente, certamente boa vida e certamente com uma família bem estruturada. Ao deparar-se com um mendigo na rua, disperso, olhando para o chão com o rosto entre as pernas, agachou-se ao seu lado e durante uma fração de segundos olhou-o com ternura, balançando a cabeça negativamente e logo em seguida abaixando-a como um último cortejo da póstuma esperança.

- O que é isto? – Questionou o mendigo.

- Uma ajuda meu amigo, temos que ajudar os mais necessitados. – Retrucou

- Qual a sua idéia de necessidade?

- Só ajudo aqueles que não tem seu sustento, aqueles que não moram e se atiram ao relento.

- É o que sou para você? Um miserável prestes a morrer?

- Eu não disse isso, caro amigo...

- Sou apenas um número na rua que mostra a sua verdade nua, aquela que tenta esconder a realidade que você não quer responder? Tira das suas costas o peso da degola, pois não se considerando culpado se inocenta do passado e se abstém da luta que estupra como sua puta!

- Não me venha com um póstumo passado, o qual retomo como um cálice escarrado! Escarrado por vocês e ninguém mais! Caem no mesmo erro e assim refaz!

Então, começa-se a formar a multidão de olhos curiosos.

- Não erramos, não acertamos, fomos formalmente condicionados a submissão, reiterados da nossa condição. Se somos pobres como eu, fadados à morte de quem se comprometeu, se como eu somos paridos da pátria, não somos parte da sociedade apátrida, se somos como você afortunado, então desfrutamos do patronato! – Continua o mendigo.

- Papo de vagabundo! Bêbado e imundo! Se dos pingos de meu suor construí minha fortaleza, é porque me esforcei com toda a certeza! Levante deste chão e lhe darei a minha mão, procure um emprego e desfaça seu receio!

- Oras, a sua escatologia é vazia! É como os pilares de uma sociedade caída! Parece mais a autofelação ilógica de uma falida sociedade retórica!

- Sua ignorância praticamente me engasga, é o tipo de pensamento que se castra! Temos um sistema que não se desfaz com palavras efêmeras! Constituído de regras e leis da inteligência de homens que assim o fez!

- Inteligência de homens que assim o fez? Só recai sobre a sociedade sua altivez!

- Altivez é daqueles que se abstém do trabalho! Assim como você tornam-se obstáculos! Infrutífero, incrédulo e, portanto irrelevante! De idéias inúteis e obstantes! Não vem na sua cabeça o quanto você deve ao Estado? Ainda vive porque ele o mantém e, portanto, é o seu legado!

- Ainda vivo porque lutei por isso, enfrentei a violência, a miséria e o egoísmo! Não vai ser um homem como você que me deixará pronto para morrer! Seu aparente sucesso não me intimida, burguês! Porque de suas palavras, somente insolidez! Como esperava que eu fosse, não sou completo ignorante! Já você, como eu esperava, é um completo arrogante! A sociedade burguesa continua criando os servos do fascismo que um dia foram ermos!

- Fascismo? Uma desculpa irreal da típica ilusão social! Não se engane com a idéia do Estado, pois sua condição atual está intimamente ligada ao seu fracasso!

- Fracasso? Não considera a idéia de um homem, fora do seu padrão social, não passar fome e não ser um animal irracional?

- Não me difame vagabundo! Tenho mais andaimes que você no mundo!

- Vagabundo é o acomodado nas tetas do sistema! Produzindo assim uma sociedade enferma! Não venha me julgar pelo que você não sabe, bem entende que a sua moral aqui não cabe! Promove a exploração em favor da mais-valia e estanca a revolução que se encaminha! Aprisiona o direito à vida e a liberdade de quem com ela lida! Ao impedir a sociedade justa e livre, você dá às pessoas uma nova crise!

- E por quê colhões eu atrapalharia esta sociedade?

- Pelo óbvio! O senhor está estritamente ligado à condição sistemática que transforma os seres humanos em seus próprios inimigos. Condimentado pela sua renda mensal privada que traduz o porquê dos pobres feridos!

- Pobres feridos ou pobres vencidos? Traduz a sua realidade que suas palavras não condizem com a verdade! A chance é igual para todos, mas quem aproveita são poucos!

- Como espera que as párias vençam na sua irreal pátria? Vocês detêm o poder da infra-estrutura a qual então reformulam a superestrutura! É fácil então os acomodados trazerem a tona discursos camuflados! A educação, a saúde e a informação não chegam pros miseráveis de sua nação! Somos as peças renováveis e substituíveis da máquina! Trabalhando com nossas vidas para a sua solução mais rápida! Enquanto vocês sentam em completo ócio e se apropriam do que, por direito, é nosso!

- Nosso? Não ironize todo o processo de formação social, pois já sabe, está fora do contexto processual! É óbvio que as propagandas mentirosas e torturas do século passado em você ainda perduram! Pena de você tenho eu, uma vez que seu futuro devaneceu!

- Meu futuro? Que absurdo! Abstenho-me do mal da sua mente que se aproveita de minha gente! Propositalmente me mantenho fora dos seus padrões e você me diz que não tenho futuro? Todos os dias luto contra os seus patrões e você me torna um vagabundo?

- Vagabundo é porque assim o quis! E nem de longe porque assim o fiz! Sabe bem que sua performance hoje em meio à multidão não passa de uma falácia de sua solidão! Esconde entre seus dentes podres o mau cheiro de suas frases aniquiladoras do sistema harmonioso dando à sociedade um status de cadáver decomposto! Mendigo, você trata sua mente assim como seu corpo, imundo, podre, incorporando o próprio nojo!

- Todo mendigo há de ser impróprio pra sociedade? Todo miserável está fadado à mediocridade? Que moral de igualdade é esta que você desfruta? Hierarquizada e de fragmentação confusa?

- De uma sociedade extremamente organizada, a fim de fazer crescer a pátria estruturada!

- Então julga que suas palavras são de verdades inestimadas e que seus condescendentes nada têm a fazer quando expropriadas?

- Se expropriadas são, tem algum motivo. Então por que ser nocivo?

Percebendo a aproximação de dois policiais militares, o mendigo aproveita a chance para dizer algumas palavras a mais:

- Porque a justiça e a liberdade não caminham juntas em irmandade! Pessoas são injustiçadas por conta da coerção de seu Estado! Abaixam a cabeça para homens fardados! Triste irrealidade que faz parte da realidade!

- É só a lei de sua pátria a qual para você não é nada!

- Não é e nunca haverá de ser! Minha pátria é o mundo com muito prazer! Porcos fardados subjugam os humilhados!

- Não se prejudique infeliz!

- Infeliz é sua pátria meretriz!

- Então de uma meretriz é filho!

- Abandonado e parido!

- Hipócrita ingrato!

- Excelente fardo!

- Agora enlouqueceu...

- A sanidade que remanesceu!

- Vamos homem, não crie mais problemas... – Um dos policiais.

- Fascista! – Grita o mendigo resistindo à prisão e com uma voz um pouco rouca

- Sou um homem honesto, livre de seu infesto! Suas palavras insanas são fortemente ardorosas que sua garganta se desfaz em contradições argilosas!

- Considere-me louco, censure-me rouco!

O homem engravatado fixou seu olhar dentro dos olhos do mendigo que gritava coisas que já não entendia mais. Olhou-o enquanto a polícia o retirava a força do local. Ao perceber os outros olhares que o crucificavam, envergonhou-se e pôs-se em seu caminho cabisbaixo.

Um comentário:

Marília França disse...

Luta de classes!
EM Brasília, sempre julgamos como o melhor lugar, os mais ricos, os mais poderosos...
Não reparamos que a grande diferença está na porta de casa.
triste!